Eu*

Eu sou um bom exemplo desse cruzamento de aceitações ou rejeições que, como diz Amartya Sen, constitui a identidade de um individuo. Sou brasileiro, latino-americano, ateu em matéria religiosa e liberal e democrata em termos políticos, individualista, heterossexual, adversário de ditadores e construtivistas sociais – nacionalistas, facistas, comunistas, islâmicos indigenistas, etc., defensor do aborto, do casamento gay, da descriminalização das drogas, do ensinamento da religião e do sexo nas escolas, do livre mercado e da empresa privada, com uma fraqueza pelo anarquismo, pela boa literatura e o bom cinema, muito sexo e um bom debate de idéias.

Tudo o que sou se esgota nessa pequena enumeração em que, à primeira vista, são enormes as incoerências e contradições? Não. Eu poderia preencher várias páginas mais, mencionando tudo aquilo que acredito ser e não ser e, com certeza, ainda faltariam muitas coisas. Cada uma delas me solidariza com um bom número de pessoas e me torna inimigo de outras tantas. E desse amálgama de tensões e fraternidades, que nunca se acalma e que está sempre se refazendo, nasce a minha identidade.

Amartya Sen reconhece que, em determinadas circunstâncias, um dos traços de uma pessoa pode se converter na sua característica mais essencial. Por exemplo, o fato de alguém ser judeu na Alemanha nazista, ou ser negro na África do Sul no período do apartheid, reduzia essa pessoa a isso apenas aos olhos dos algozes racistas, para poderem matá-la ou discriminá-la com a consciência tranqüila. Ser gay entre homófobos ou ateu entre crentes fanáticos obriga uma pessoa a privilegiar essa condição das outras convertendo-se num marginal ou perseguido.

José Franco Jr. graduado em Comunicação Social (Radialismo – Rádio e TV) pela Universidade Cruzeiro do Sul. Locutor formado pela escola técnica Radioficina. Vídeo Designer formado pelo SENAC e estudante de língua inglesa. Mora em São Paulo, S.P. aquáriano (se é que você dá atenção para isso), bebe coca-cola com cubos de gelo em números impares, escreve para o site de cultura pop “Poppycorn” e o blog “Disparos do Front”, tem como trilha sonora em seu toca-mp3 jazz, rock, blues, mpb, eletrônica…

*Adaptação de “E o homem, onde estava?” de Mario Vargas Llosa

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