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Música: “Sister Saviour”, The Rapture
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Hoje não tem post/nota tentando decifrar o mundinho de cultura pop, elogios a bandas que gosto ou leituras que fiz. Hoje é dia de passar ao lado da mulher que mais amo e que me ensinou a ser quem sou.
Hoje é dia de apagar velinhas.
Música: “Baby’s Got A Temper”, Prodigy
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eueopop: assisto a um vídeo do Radiohead em Glastonbury e penso: “Ca@#$%& como pode um ser humano viver sem assistir um show desses.”
eueopop: o pior é que fiz uma promessa que se realizar não vou assistir nunca mais um show do Radiohead, pior ainda, não acredito em reencarnação.
eueopop: ouço o podcast de Max Gehringer sobre networking e penso: “Networking é o ca@#$%&, networking é o ca@#$%&.”
eueopop: a maninha conseguiu visto para entrar nos EUA, entre as milhares de perguntas da entrevista só faltou perguntarem “Qual o segredo de Lost?”
eueopop: acho que algumas pessoas não entenderam qual é a idéia desse novo filme do “Arquivo X”, o Mathias escreve mais sobre isso.
eueopop: um amigo definiu perfeitamente o que é trabalhar em certos lugares e para certas pessoas:
eueopop: “pra mim, lá, funciona assim: eles me pagam, eu faço o meu trampo da melhor maneira possível, isso me financia os estudos pra outras coisas”
eueopop: “Acho que Deus esqueceu de você.”, você leitor não sabe o quanto doeu ouvir essa frase, a realidade é devastadora…
eueopop: você viu a tabela de preços dos cachês para alguns artistas/bandas nacionais publicados no “Eu & Fim de Semana”?
eueopop: já percebeu que essa sessão “Estilo Twitter” é publicada em toda data final zero? 10, 20, 30, 10?
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Música: “Doce Guia (Céu)”, 3 Na Massa
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Sempre acreditei que conseguiria levar adiante um projeto pessoal de tornar minha coleção de cadernos “Folhateen” – suplemente jovem que acompanha o jornal “Folha de S. Paulo” às segundas-feiras – que tenho há quase dez anos em tema para minha pós-graduação.
Ontem peguei uma grande caixa onde existiam mais de 300 exemplares e joguei fora.
Algumas coisas perdem o sentido.
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Da mesma forma sempre acreditei que nunca transformaria meus CDs em arquivos de Mp3. Existem CDs que acompanham histórias, seus encartes e letras, as fotografias, o prazer de abrir um CD original e ver ali a obra completa de um artista (banda/cantor) além do simbolismo quando ele é fruto de um presente.
Vinha adiando há algum tempo esse processo deixando por ultimo os CDs das bandas que mais gosto: Radiohead, Violins, Brad Mehdau e Los Hermanos.
A discografia inteira das quatro bandas não ocuparam 30% de um DVD, e transferindo para o toca-mp3 essa porcentagem seria quase nada.
Para mim a invenção do século foi o iPod, até o final do ano será o iPhone.
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Na universidade ouvia muito alguns professores citarem a configuração das câmeras, programas de edição, a iluminação correta, cenário, profissionalismo e ética.
Hoje quando assisto a TV ou acompanha o noticiário em algumas revistas direcionadas para TV, me pergunto:
Onde está o conteúdo, onde está um roteiro bem escrito, aliás, onde está a ética e o profissionalismo?
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- Tio você não tem mais provas? As minhas acabaram…
- Sim, mas as minhas são diferentes, são as do curso.
- Mas você não estuda mais?
- Estudo no curso, assim como a mamãe.
- Mas em escola de verdade, você não estuda, não é?
- Não, o titio não estuda mais, na verdade eu não vou estudar mais…
(O que o tio gostaria de dizer é que não vale a pena estudar, que ele (o tio) não iria estudar nunca mais, que as coisas não são bem como deveriam ser e que não adiantou nada ter estudado muito, aliás, a vida inteira, assim como estudou, muitas vezes a escola não serve para nada)
O tio não disse nada disso escrito no parágrafo acima, mas mesmo assim a ultima frase do curto bate-papo foi uma das coisas mais tristes que ele já disse para o sobrinho.
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Certa vez Marcelo Costa citou um poeta: “A carne é triste, e eu li todos os livros”.
Ainda bem, eu ainda não li todos os livros.
Estava olhando os arquivos deste blog e unindo o contexto dos tópicos anteriores pensei:
Algumas coisas a gente perde pelo caminho. É triste.
Hoje não tem música abrindo a nota, apenas o som das risadas. Hoje não tem mau humor, cara feia, reclamar do mundo ou da vida. Hoje é dia de comer algodão doce e brincar com bexiga. Hoje é dia de fazer cosquinha. Só quem sabe entende, que bom.
Música:
“Canção Para Você Viver Mais”, Pato Fu
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É muito difícil falar sobre alguém que está tão próximo e manter o certo distanciamento para analisar, existem exceções, sempre existem, mas para ser exceção é preciso antes, muito antes, ser exemplo e espelho.
Nunca em momento algum da minha, ainda curta, vida quis ser outra pessoa. Nunca. Não é preciso, tenho uma vida dura, mas maravilhosa. Por isso nunca me despertou tanto interesse quando assisti “Quero ser John Malkovich” em ser outra pessoa.
Admiro tantas pessoas – o leitor mais atento percebe isso nas entrelinhas deste espaço -, mas nunca pensei em ser alguma delas. Existem momentos delicados onde o cinza supera as tantas outras cores do arco-íris, são nesses momentos que dúvidas sobre as nossas verdades aparecem, porque, diante delas, ou a gente reforça nossas convicções e responde ou então põe em cheque velhas verdades e vai buscar novas respostas.
São nesses momentos em que me pego duvidando da minha fé oculta e chorando (homem não chora? Tá bom) contra o óbvio que quero ser outra pessoa, mas a pessoa que quero ser não é exatamente como no surreal filme com John Malkovich. Não quero seu corpo, seus prazeres, sua vida. Quero apenas a força e a coragem, a ousadia e o talento, o sonho e a simpatia, a humildade e a humanidade que exala como perfume, quero apenas isso. Nada de “sétimo e meio andar”.
Quero ser Simone Gleice.
A Si é meu espelho e minha heroína (do Aurélio: “mulher de valor extraordinário, ou que é protagonista duma obra literária”; ou como escreveu Shakespeare: “heróis são pessoas que fizeram o que era necessário fazer, enfrentando as conseqüências.”).
Por isso quando as sombras dos marimbondos teimam em tirar a luz do sol eu penso que é possível vencer, porque a Si está vencendo, ela lutou pra ca***** e por isso está realizando seus sonhos, merecimento é a palavra, mas olha só: poucos merecem como ela.
Ela que me move, ela meus amigos e minha família, mas é nela que me espelho, ela é minha bússola.
Hoje é aniversário dela e o que eu posso fazer é apenas reverenciar a pessoa que me fez ser quem eu sou.
Enquanto ela estiver por perto, não tenho medo de nada.
FELIZ ANIVERSÁRIO Si!!!
Música:
“Trabalhador”, Seu Jorge
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A lógica de games shows como a atual edição do programa “O Aprendiz” nunca me despertou o mínimo interesse (em outra nota explico o motivo, se a memória não se ausentar), mas o episódio transmitido na última terça-feira, dia 27, de uma forma bem peculiar fez acender uma pequena faísca na enorme fogueira de interesses que é o telespectador.
Durante os dois últimos anos de ensino superior acompanhei a distancia, mas o mais próximo possível, os estudos de um amigo; no ultimo ano essa distancia aumentou consideravelmente, mas o olhar atento e os constantes encontros fizeram com que estivesse bem informado sobre o trabalho de conclusão de curso ao qual ele se dedicava integralmente.
Philip Roth escreveu em “Homem Comum”: “A velhice não é uma batalha, é um massacre”, sim Roth, mas um Trabalho de Conclusão de Curso também.
Mas sempre que necessitava de alguma ajuda com relação as artes gráficas acionava esse amigo, indiferente de estar acompanhado de garrafas de cerveja e algumas caipirinhas ou apenas na mesa do espaço aberto para as refeições no pátio da universidade ele sempre se mostrava solícito. Um grande profissional e um amigo sem igual.
Quando citava-o e hoje ainda o faço algumas pessoas poderiam/podem questionar o certo distanciamento necessário para a crítica construtiva e o mérito. Se faz necessário afirmar que não somos amadores, daí o link ao programa citado.
Meu amigo é formado em Publicidade e Propaganda, a prova realizada no episódio citado tinha como principal ponto de apoio e análise a Publicidade e a Propaganda, daí a faísca.
A atual edição do programa “O Aprendiz” recebeu mais de 43 mil inscrições, pós-graduação e inglês fluente são algumas das necessidades dos próximos candidatos a aprendizes.
A quantidade de escolas de ensino superior no país aumenta mais que a fiscalização com as mesmas o que faz com que o ensino nelas desenvolvido seja questionável, daí a enorme quantidade de formados desempregados nas áreas as quais estudaram.
Meu amigo não é exceção.
O episódio ao qual assisti veio fazer parte dos inúmeros pontos que já conheço para formar um argumento e defender a idéia de que “a escola não serve para (quase) nada”, argumento esse desenvolvido brilhantemente pelo economista e especialista em educação Gustavo Ioschpe.
É real a possibilidade de que em uma alternativa lúdica meu amigo participasse ou participar de alguma edição do programa ele ser eliminado/demitido bem antes do que os outros participantes, oras bolas, ele não possui pós-graduação e não tem o inglês como é necessário, mas ele faria de forma competente a tarefa do episódio citado, muito diferente do que assisti.
Não desejo que ele seja o grande vencedor de alguma das futuras edições do programa e não creio que vá apresentar alguma peça no próximo festival de publicidade Cannes Lions, mesmo ele possuindo talento para tanto.
Gostaria apenas que ele não precisasse começar seu dia de trabalho desta forma:
- Alô “Banco que nem parece banco”, em que posso ajudá-lo?
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Zapeando a televisão aberta vejo Seu Jorge dedilhar seu violão e cantar:
“Está na luta, no corre-corre, no dia-a-dia/
Marmita é fria mas se precisa ir trabalhar/
Essa rotina em toda firma começa às sete da manhã/
Patrão reclama e manda embora quem atrasar/
Trabalhador brasileiro/
Tem gari por aí que é formado engenheiro”/
Há algo de muito errado na República Federativa das Bananas.
Música:
“Machine Gun”, Portishead
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Paul Auster estou escrevendo para contar a minha história, como a única condição para participar do seu programa de rádio, “Weekend All Things Considered”, é que a história contida na carta seja verdadeira, isso eu posso afirmar.
“Uma nuvem preta”
O ditado popular diz que nós brasileiros sempre deixamos as coisas, sejam elas quais forem, para a última hora. Na universidade eu tive uma professora que dizia algo bem parecido: “Vocês são desorganizados e deixam tudo para a ultima hora.” Ao longo dos anos e com o acumulo de trabalhos e responsabilidades percebi que ela estava certa.
Era véspera de Natal, como sempre eu não ligava muito para essas datas, mas gostava de ficar próximo das pessoas que eu amo, minha família e os poucos amigos. Os preparativos para a ceia de natal estavam quase todos prontos, faltavam apenas detalhes, a decoração da mesa, os badulaques nos cantos da casa, os bichinhos de pelúcia no sofá e, claro, assar o peru.
Poucos estavam em casa, provavelmente deveriam ter ido ao cabeleireiro, a manicure ou, sei lá, apenas na casa do vizinho. Minha mãe não estava perto.
Meu pai e minha irmã disseram que ela havia ido comprar roupas para o meu irmão e para mim e para ela, coisa rara, ela nunca se preocupava consigo mesma.
Eu não me lembro direito o que estava fazendo naquele 24 de Dezembro, provavelmente escolhendo os discos que iria tocar mais à noite, relendo alguns artigos que me deram prazer durante todo o ano ou apenas brincando com a gata que tínhamos em casa naquela época, não sei ao certo.
Nunca gostei de datas comemorativas porque para mim elas não significam nada, apenas datas que resultam em feriados e depois em lucros para o comércio, não há nada contra isso, não sou contra o capitalismo justo – se é que ele existe, mas não me agrada a idéia de comemorarmos essas datas, não tenho um argumento sólido para defender essa idéia, mas é isso.
Apenas gosto de aniversários e o Ano Novo e se você me perguntar porque eu vou responder que gosto e acredito em renovação e essas datas são ciclos tendo fim e inicio, eu acredito em ciclos, são novas chances, são a esperança renovada, é hora de colocar nossos erros e acertos em xeque, é hora de acreditarmos ou não nos nossos heróis, é essa a grande hora!
O sol já estava indo embora desenhando na tela azul que Ele colocou no horizonte uma linda figura de sombras abstratas e sem significado nenhum assim como as coisas mais belas que já vi, elas não precisam de explicação ou descrição, são o que são e são lindas. Naquela hora eu suspirei e agradeci por aquela graça que estava nos meus olhos.
Por mais que a noite estivesse chegando e os detalhes estivessem todos em ordem nem sempre tudo dá certo…
Já estava bem tarde e minha mãe não tinha voltado para casa, começamos a ficar preocupados e cada vez que o relógio marcava mais uma hora a preocupação se transformava em medo, de medo a aflição, de aflição em tragédia antecipada… mas enfim minha mãe chegou.
Ela não estava feliz e alegre por estar em casa, próxima das pessoas que a amavam, ela estava pálida, gélida e sem vida. Nos preocupamos em checar se ao menos ela conseguia responder algo, o mínimo que fosse, mas não conseguia, estava desacordada.
Rapidamente a levamos para o hospital (já disse que odeio hospitais?), mas incrivelmente havia um trânsito desumano no caminho entre nossa casa e o que achávamos fosse sua salvação.
Eu estava no banco de trás do carro, à frente meu cunhado e meu pai tentavam em vão gritar para que abrissem caminho, mas os carros da frente estavam preocupados apenas em chegar à casa de seus parentes e amigos para celebrar o nascimento d’Ele e abrir seus presentes, eu queria apenas minha mãe sorrindo e olhando para mim, como sempre fez.
Em um dos momentos mais críticos ela ficou gélida, mais pálida ainda, sem responder aos meus questionamentos “Mãe? Mãe? Mãe?”, ela estava indo embora e eu não podia fazer nada, nada. Nunca havia sentido um sentimento de impotência como naquele momento, eu era o ratinho no laboratório d’Ele e eu não podia fazer nada.
Olhei para os céus e clamei por sua ajuda, pedi sua presença e sua mão, pedi uma luz e um milagre, na verdade pedi apenas a minha mãe de volta, queria apenas isso, nada mais, nada mais…
Mas ele não apareceu. Ele nunca mais apareceu e naquele momento aprendi que não seria a única vez que ele me abandonaria.
O farol estava vermelho e eu entrei em pânico, estávamos a apenas algumas quadras do hospital, mesmo sem saber se ela iria sobreviver eu queria chegar naquele hospital, eu precisava chegar naquele hospital.
Entre o pânico e o medo, a impotência e a descrença n’Ele eu chorei de raiva, de medo e da sensação de perder a pessoa que eu mais amava na minha vida, foi quando entre as lágrimas agridoces eu vi uma nuvem negra varrer o carro e entrar na nossa direção, aquilo não era nada bom, não mesmo.
Foi quando eu senti um vazio imenso e devastador dentro de mim, eu percebi que o mal estava próximo e mais uma vez não poderia fazer nada, mais uma vez Ele havia me abandonado e o seu inimigo estava querendo falar comigo.
Em “O Sétimo Selo” há um jogo de xadrez onde quem vencer fica com a vida, mas de um dos lados do tabuleiro está ela, a Morte, do outro nós, a humanidade, comuns e sem dom nenhum. Naquela noite ela estava nos visitando, ela estava me testando, assim como Ele, mas ela era mais irônica e bem-humorada, ela estava querendo me propor algo, mas por algum motivo eu não conseguia ouvir, estava em choque, estava com medo e estava sozinho.
Em poucos segundos vi o filme da nossa família passar nos vidros do carro, como uma tela de cinema mal improvisada, quando eu ia dizer adeus para minha mãe e mais uma vez as lágrimas escorreram e molharam seu rosto, não sei o que houve mas um barulho devastador, algo como um Sigur Rós ao vivo ou um furioso Explosions In The Sky invadiram meus ouvidos e aos poucos a fumaça preta foi sendo levada pela pequena garoa que caia na cidade.
A cidade cinza estava com as ruas negras de molhado, os faróis ficaram verdes e minha mãe chegou ao hospital.
Nunca mais vi a nuvem preta, nunca mais clamei o nome d’Ele, nunca mais (exceto uma vez) chorei por mais alguém.
A noite de Natal ficou triste e cinza, os presentes não foram abertos e eu acredito que o maior presente que poderia ganhar naquela noite era a minha mãe de volta, não sei o que a Morte disse para mim olhando nos meus olhos, não sei o que ela me propôs, sei apenas que ela foi embora e minha mãe está aqui do meu lado.
Achei que meu pai fosse Deus, mas não. Ele não era.
Naquele dia eu perdi muitas coisas. Naquele dia eu perdi minha fé… Deus morreu para mim.
José Franco Nunes.
São Paulo – S.P.
Música:
“23 Carnavais”, Violins
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Não lembro muito das minhas lembranças de criança, sei apenas que não foi uma infância difícil, dolorosa e com algum trauma, talvez isso explique muitas das coisas que aconteceram na minha longa vida e só fui perceber nas ultimas semanas.
Muitas pessoas costumavam dizer que aniversários eram épocas para se fazer uma auto-análise, oras bolas, fechava-se um ciclo. Nunca acreditei nisso, mesmo agora velho, ainda não acredito. As analises sempre foram feitas diariamente, quando deitava a cabeça no travesseiro e o mundo caia sobre mim.
Era muita responsabilidade: sempre trabalhei em dois empregos ao mesmo tempo, sempre estudei e teimava em fazer coisas que não tinha talento algum, como tentar ser escritor e aspirante a jornalista. Mesmo assim algumas pessoas (Ei Baby! You don’t know me) me chamavam de acomodado (Ei Baby! You don’t know me). Quando se é jovem não se dá à devida atenção para algumas coisas essenciais, das mais importantes que há na vida: o tempo não pára. E olha que sempre prestei muita atenção ao que o poeta cantava.
Naquela época, quando era ainda moço, plena saúde, disposição e uma fé camuflada de birra adolescente e boba eu acreditava que muitas coisas seriam importantes para mim naquele momento. Sempre comentava com minha irmã que a gente, eu e ela, conseguíamos as nossas coisas por sermos teimosos, não era bem assim. Lutávamos contra a falta de oportunidade e por isso dávamos o nosso máximo em qualquer atividade bobinha. Éramos guerreiros, sempre fomos.
Lembro que briguei com amigos, me apaixonei por amigas, e perdi ambos, todos em algum momento foram embora. Lembro agora das palavras de Oswald de Andrade que serviram de epígrafe para “A Tempestade” (1996) CD póstumo de Renato Russo, outro poeta, e da Legião Urbana: “O Brasil é uma república federativa cheia de árvores e gente dizendo adeus.”
Adeus são cinco letras que choram, melancolia, saudade, luto.
Mas nunca tive menos amigos do que precisava, sempre alguns poucos, sempre maravilhosos, sempre inteligentes e cultos, sempre amigos, sempre soldados me ajudando quando as bombas da vida explodiam levando partes de mim.
Lembro que quando terminei a leitura de “Homem Comum” do talentoso Philip Roth uma frase não saia da minha cabeça e ficou martelando algumas semanas, acho, meses:
“A velhice não é uma batalha, é um massacre.”
Apenas agora consigo entender algumas coisas.
O personagem de Roth era amargo, ranzinza, quase um perdedor, talvez por isso seu autor afirme isso desta tenra idade, não queria morrer velho até que um dia comecei a pensar diferente.
Sempre fui descrente com relação à religião e superstição, mais por decepções e derrotas, além de muita porrada que levei da vida, do que por discordar da forma que algumas pessoas as abordavam. Mas certo dia comecei a dar maior importância para os sinais que implicam em bater no nosso vidro e a gente não dá a mínima.
Estava sentado no banco próximo de uma praça lendo algo, talvez as colunas do grande Dapieve, quando uma velha se aproximou e perguntou se poderia ler minha mão. “- Não.” – fui seco e direto. “Claro que não”. – achei que tivesse encerrado o monólogo ali, mas não.
- Eu não vou cobrar nada, apenas gostei do modo como faz a aparente interessante leitura, poucas vezes vejo isso nas pessoas.
Mal sabia a senhora que naqueles momentos de sexta-feira à tarde a leitura da minha coluna favorita era para repor as energias que logo se esgotariam nos sempre caóticos finais de semana, sempre brutais e desumanos.
- Desculpa senhora, mas eu não acredito nessas coisas e em forma de respeito não quero depois fazer pouco caso com o que a senhora vá me dizer…
- Não tem problemas, um dia você vai entender algumas coisas.
Deixei-a ler a mão e depois do que ela me disse lembrei do pequeno menino em “Peixe Grande e Suas Histórias Maravilhosas”, ela não me disse como, mas quando eu iria morrer.
- Moço eu estou vendo um oito…
- Mas eu odeio numero par.
- … e um três. – ela continuou.
A senhora saiu devagar e sorrindo, um riso solto, livre de imposições ou encenações, ela vestia um vestido preto longo e tinha um rosto jovem apesar da idade. Durante dias achei que fosse a morte, depois deixei a história de lado e fui viver minha vida. Lembrei agora que antes dela ir embora ela sussurrou no meu ouvido: “Você acha que eu sou louca, mas tudo vai se encaixar.”
Algumas coisas ao longo da vida se encaixaram como bloquinhos de Lego, outras não.
Nunca entendi algumas coisas na e da vida, mas muitas respostas que nunca achei encontrar vieram com o tempo e de forma sempre bela.
Hoje, que faço 83 anos, a família reunida para cantar a saúde e a vida de um velho contando suas memórias, netos reunidos pela casa, a pequenina Deise, o mais novo xodó da família, o Eduardo meu filho querido lendo seus autores preferidos direto do original, nas várias línguas que tanto estudou, me faz ter orgulho, com tudo isso percebo que nada com o que esquentei a cabeça teve muita importância, nenhuma dessas neuroses. Nascesse hoje, diria mais palavrões, muitos foda-se, amaria mais, trabalharia menos, mas menos mesmo e andaria mais pela areia da praia em dia de sol ou de chuva, pediria mais desculpas e daria mais perdões.
Quando terminei minha primeira faculdade, cheio de ânimo (ok, não é bem essa a palavra) e energia e uma imensa sombra de dúvidas e paranóias eram o conteúdo de qualquer pensamento, tenho que assumir que foi um período difícil, mas assim como tudo – e olha, sou velho o suficiente para poder dizer isso – passou, depois comecei a colher algumas poucas, mas deliciosas e belas frutas.
Agora que estão me chamando para cortar o bolo e tomar as pílulas para alguma das coisas que sinto no coração, lembrei da frase do Millôr:
“Não lamente estar ficando velho: muitos não ficam.”
Havia me programado para publicar aqui um texto sobre os meios tecnológicos e as relações humanas, tendo como ponto de partida o ilustre texto de Carla Rodrigues. Mas quando um amigo do outro lado do planeta acena com um “Oi” no bate-papo, a amiga super atarefada no trabalho e na escola não consegue falar com você pessoalmente ou o irmão grava o sobrinho na aula de futebol e natação porque os horários não combinam. A partir daí você vê que o amigo continua uma grande pessoa, mesmo com a distância e o tempo; a amiga continua um amor e com uma simpatia enorme, mesmo com tanta pressão e em alguns momentos tristeza e decisões difíceis a tomar e o sobrinho não apenas nada melhor que você (que, detalhe, não sabe nadar) como também joga um lindo futebol, você pega e aperta o botão do f***-se e manda as teorias à lona.Mesmo assim ainda fica a dica de ler o texto “Invasões tecnológicas” de Carla Rodrigues, no ótimo site NOminimo e assistir ao filme “As Invasões Bárbaras” de Denys Arcand.
Abraço.Radinho: “Nux Vomica”, The Veils
















