Música:
“Eu Comi A Madona (Multishow Ao Vivo)”, Ana Carolina

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Na escola os amigos já pensavam: “Lá vem ele falar mais uma vez daquele jornalista carioca.” O leitor mais antigo deste espaço, que segue não sei por qual motivo essas palavras aqui escritas, sabe que não consigo ficar sem a leitura-divã da coluna de Arthur Dapieve.

Poderia tentar argumentar que ele foi o cara que me ensinou a gostar de jazz e cinema europeu, me mostrou um sem número de bandas que importam, indicou livros que hoje me orgulho de ter lido e tantas outras coisas que apenas a idiossincrasia poderia explicar, mas não são apenas essas coisas que me fazem acordar todas as sextas-feiras cedo e antes de dar bom dia para a vida ligar para a banca e reservar meu exemplar do jornal “O Globo”.

Dapieve me ensinou a querer escrever melhor, crente de que nunca teria seu estilo ou talento, contrabandeio suas dicas e passo a frente, muitas vezes neste espaço ou no Poppy.

Na sexta-feira passada, 25 de abril, a capa do caderno de cultura do jornal fazia a ansiedade em ler suas letras alcançar altos índices: “Coluna do Dapieve: Brad Mehldau é o cara do jazz na atualidade.”

Leitor, Dapieve escreveria sobre Brad Mehldau. Leitor, Brad Mehldau!!!

Se o leitor não sabe ou conheço quem é Brad Mehldau, ao menos, deveria.

Brad Mehldau é o pianista de jazz que mais gosto, é o cara que transformou a obra-prima do grupo inglês Radiohead em obra de arte. Brad Mehldau transformou a faixa “Paranoid Android” recheada de guitarras em um solo de 19 minutos ao vivo no Japão, gravado em seu ótimo disco “Live In Tokyo”, em uma sessão de relaxamento e viagem como ninguém. Hoje quando celebram o jovem Vítor Araújo, não sem merecimento, esquecem ou - essa nossa sempre grata imprensa musical - não sabem que Mehldau fez isso, brilhantemente, há seis anos atrás.

Ler as palavras de Dapieve veio mais uma vez confirmar o que já sei há 9 anos: ler Dapieve faz a diferença. Ele é um dos poucos que importa ler.

Dapieve escreveu a coluna para indicar o novo lançamento do pianista americano que quebra já há algum tempo o conservadorismo bobo dos fiéis de jazz. Mehldau é vanguarda. Prova disso é a inclusão de duas faixas que ficaram, em apenas uma palavra, s-e-n-s-a-c-i-o-n-a-i-s ao piano: “Black Hole Sun” do grupo Soundgarden e o clássico “Wonderwall” do Oasis.

Em 2006, Mehldau lotou o lindo Auditório Ibirapuera em três noites, em uma delas estava lá eu descrente do que via:

O piano apresentou problemas durante toda a noite, tanto que o espetáculo foi atrasado em mais de 40 minutos, mas enfim o concerto teve inicio. Mehldau mostrou enorme paciência nas primeiras músicas, mas após chamar um afinador e perceber que o problema permanecia começou a “agredir” as cordas do seu instrumento enquanto tocava, aquilo foi sensacional. Não havia testemunhado nada parecido na música clássica ou no jazz, apenas em shows de rock, guitarristas esmerilharem suas guitarras tornou-se até mesmo normal, mas um pianista “bater” nas cordas internas enquanto dedilha as teclas de seu piano foi a primeira vez. Também lembrei do que Dapieve escreveu sobre Mehldau em seus shows: “Quem já assistiu a um show de Mehldau testemunhou o tormento físico da sua performance: ele fica meio torto, em transe, sobre o piano, o rosto voltado para longe da platéia. É impressionante.”

Mas nada fez aquela noite menos iluminada. Mehldau tocou Chico Buarque, duas canções do Radiohead e uma versão de 13 minutos de “Black Hole Sun” (o novo lançamento, “Live”, lançado em março nos Estados Unidos possui uma versão de 23 minutos de mágica, não outra palavra. Transformar a pesada versão do grupo de grunge em jazz não é para poucos, senão Mehldau).

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Em seu primeiro “Live In Tokyo”, gravado no Japão, há uma versão de 19 minutos da canção “Paranoide Android, como já escrevi acima. Poucas coisas nessa vida conseguem exorcizar demônios e o stress massacrante de um dia ou uma semana de trabalho em mim quanto esse CD.

Em fevereiro fui passar um pequenino período de férias no litoral, aproveitar o aniversário distante da paranóia da cidade cinza e ficar próximo de uma pessoa especial, junto levei meu disco ao vivo de Mehldau.

Ficar na varanda olhando para o mar ouvindo jazz ao vivo nos fones de ouvido e recebendo carinho faz com que as esperanças mortas em algumas coisas voltem a ter vida.

Experiência única!

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Há uma semana, ao abrir o caderno “Folhateen” do jornal “Folha de S. Paulo” e ir direto a coluna “Escuta Aqui” as primeiras palavras já me emocionaram: o tema da coluna era a dica de um pocket-show do grupo Portishead.

Assim escreveu Álvaro Pereira Junior “Musical e emocionalmente, um outro mundo. Desinteressado de grandes explicações, mas com obsessão pelo detalhes. Frio e distante na forma, mas desesperadamente confessional no conteúdo. Aflito, vital. Uma absoluta obra-prima contemporânea. Assim é ‘Portishead in Portishead’, um vídeo com sete canções novas dessa instável banda inglesa que lança este mês seu primeiro álbum em 11 anos.”

Para quem já assistiu o ótimo show em DVD “Roseland New York” sabe que Portishead ao vivo é devastar a alma. Beth Gibbons canta como se fosse sua ultima canção em vida, os novos arranjos são gélidos e suspensos pelo ar parecendo quebrar a qualquer momento, a guitarra de Adrian Utley e os efeitos de Geoff Barrows em nenhum momento se sobrepõem um ao outro, a harmonia de estar dentro de um iglu faz o ouvinte/telespectador desacreditar em esperança.

Não vale a pena entregar mais surpresas e detalhes. Como escreveu Álvaro Pereira Junior “O endereço é este: current.com/items/88899146_portishead_inportishead. ‘Portishead in Portishead’ é a perfeição.

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“Live” de Brad Mehldau e “Thyrd” do Portishead já são desde já discos do ano e o show de ambos devem ser vistos ao menos uma vez na vida.

Ficam as dicas, não minhas, mas sempre ótimas dicas.