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Música:
“Teardrop”, Massive Attack

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Ao final da primeira temporada ele salvou o atual marido de sua ex-mulher; no final da segunda temporada ele levou um tiro do viúvo de uma ex-paciente; durante a terceira e melhor temporada até o momento ele volta a caminhar, ou melhor, correr, é perseguido, preso e processado durante alguns episódios por um policial mal atendido por ele, e no final da temporada é abandonado pela sua equipe médica de auxiliares Foreman, Chase e Cameron, tanto que o primeiro episódio da quarta temporada chama-se “Alone” (“Sozinho”). Na verdade Foreman vai embora, Chase é demitido e Cameron pede demissão.

Devo meu interesse e vicio na série do doutor mau-humorado House a Arthur Dapieve e uma menininha chamada Marianna. Mais uma vez obrigado. Sou eternamente grato!

Certa vez a colunista de televisão do jornal “O Estado de S. Paulo”, Etienne Jacintho, escreveu que o doutor House era uma espécie de Ogro, assim como o personagem de animação Shrek, até hoje ainda não encontrei uma classificação melhor para o médico que não gosta de seus pacientes.

Assim como bem observou João Pereira Coutinho, Andrew Holtz e (depois escrevo mais sobre ele) claro, Arthur Dapieve o médico mau-humorado se parece em muito com o detetive Sherlock Holmes, até mesmo David Shore (criador da série) citou esse fato em entrevista ao jornal “Folha de S. Paulo” há alguns meses, ou seja, ele segue pistas. Por isso, muitas vezes acredita mais nas provas do que nas pessoas, seus pacientes, porque acredita que “Everbody lies”.

Como me ensinou Dapieve, o site da Fox Americana vende a US$ 19,95 camisetas com a frase dita pelo Ogro do hospital escola Princeton-Plainsboro. Meu aniversário é em fevereiro, espero você juntar moedinhas de cents.

Talvez você, nem eu, queiramos ser tratados por um Shrek de jaleco branco, aliás, ao qual o doutor Gregory House não usa, mas temos que admitir: ele é genial!

Depois de quase perder o emprego, a licença da profissão, os amigos ou o respeito deles, perder a sanidade (oras bolas, não tomar suas pílulas o fizeram agir de forma completamente incomum: ele pediu desculpas duas vezes – sim, ele, House – em um único episódio); depois de tudo isso era possível imaginar que o doutor House começasse a gostar ou respeitar a humanidade, ou ao menos qualquer pessoa próxima. O que se esperava dele era a redenção… mas não, essa palavra não faz parte do seu vocabulário.

Por isso, no episódio seguinte (“Uma Agulha no Palheiro”, 3-12), ele faz pirraça, mais uma, com sua chefe, a doutora Cuddy, e fica uma semana andando em uma cadeira de rodas, tudo isso em troca de… uma vaga no estacionamento que está destinada a uma outra doutora que é cadeirante.

House continua House, só isso.

Ah… quer saber, se você não gostar de House, a série ou o médico, sabe quem é o chato? Você, porque além de tudo ele ainda toca guitarra, gosta de jazz, música clássica, blues e… piano.

Todos somos chatos, menos House.

Em um dos momentos mais bacanas da terceira temporada dr Gregory House está em uma loja para comprar uma nova bengala, quando pergunta quais as opções de modelos ele não gosta de várias, mas em certo momento escolhe uma e antes de efetuar a compra olha para a câmera e diz um alegre “Legaaal”. Apenas para constar: a bengala tem labaredas desenhadas na ponta.

Nunca acompanhei nenhuma série, nem mesmo filmes que passam da segunda ou terceira seqüência, não vejo graça em séries de super-heróis muitos deles utilizando a cueca em cima da calça e não entendo pessoas que se vestem iguais seus personagens preferidos ou pessoas que vão a exposições da série ou encontros de fãs, acho isso mais do que o necessário, mas House me ganhou.

Andrew Holtz, ex-setorista da CNN, escreveu um livro para mostrar o que há por trás dos diagnósticos da série de TV, “A ciência médica de House“, lançado aqui pela Best Seller, mais uma série que resulta em badulaques ou algo do tipo. O leitor mais esperto pode dizer que é um livro e por isso deve ser tratado de forma melhor. Não acredito nisso: é mais uma mercadoria para fazer os cofres dos criadores da série se aproximarem do cofre do Tio Patinhas, mas…

Enquanto assistia aos últimos episódios da terceira temporada me questionava: o que injetar no corpo enquanto o novo box contendo a quarta temporada não chegar as lojas ou as boas locadoras?

Em mais uma coluna escrita por Dapieve, já a terceira, sobre a série ele se pergunta quase a mesma dúvida, mas não encontra alternativas na grade de programação: “Não me servem as representações dramáticas (‘E.R’), romântica (‘Grey anatomy’), cômica (‘Scrubs’) ou apavorante (‘Kingdom Hospital’) dos hospitais. Para obter igual efeito, há que ter o viés filosófico, se aproximar da coisa real, refletir sobre ela, isto é, a morte.”

Dapieve encontrou duas alternativas, mas não encontrou êxito em outras duas séries: “Enigmas da medicina” e “Medicina Extraordinária”. House faz falta.

Por isso, enquanto espero o quarto box, me espera também para leitura o livro de Andrew Holtz aqui do lado, na escrivaninha. Como escreveu Dapieve:

“Há dores que a morfina não alivia.”

E como você sabe:

“Everbody lies”.

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Um guia da série escrito por mim para guiar o leitor desavisado seria:

1º Temporada: “Três Histórias (episódio 21)”

2º Temporada: “House versus Deus” (episódio 19)
“- Se você fala com Deus é religioso. Se Deus fala com você é psicótico.”

3º Temporada: “Um Dia, Numa Sala (episódio 13)” e “Erro Humano (episódio 24)”
“Por que Ele leva o crédito de todas as coisas boas? Onde estava Ele quando o coração parou?”

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Foram 66 episódios seguidos sem pausa nem descanso, acho que mereço alta!

Série: “House”

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 ”House” (“House M.D.”, EUA, 2007)

Gênero: Drama
Duração: 45 min. (Episódio)
Diretor(es): Deran Sarafian, Daniel Sackheim, Daniel Attias, Peter O’Fallon, Greg Yaitanes, Bryan Singer, Fred Gerber, David Semel, David Platt, Newton Thomas Sigel, Bryan Spicer, Frederick King Keller, Martha Mitchell, Juan José Campanella, Katie Jacobs.
Roteirista(s): David Shore, Lawrence Kaplow, Thomas L. Moran, Peter Blake, Sara Hess, David Foster, Russel Friend, Garrett Lerner, John Mankiewicz, Matt Witten, Liz Friedman, Doris Egan, Pam Davis, David Hoselton, Leonard Dick.
Elenco: Hugh Laurie, Lisa Edelstein, Omar Epps, Robert Sean Leonard, Jennifer Morrison, Jesse Spencer, Bobbin Bergstrom, Stephanie Venditto, Sela Ward, Anne Dudek, Peter Jacobson, Kal Penn, Olivia Wilde, Edi Gathegi, David Morse.

Dr. Gregory House (Hugh Laurie) é um brilhante profissional da área médica, rude, desprovido de boas maneiras e honestidade e uma certa acidez. Embora a sua conduta possa ser tachada de extremamente anti-social, House é um especialista cujo raciocínio não é nada convencional e possui instinto certeiro em seus diagnósticos, que o permite ser respeitado por todos. A cada episódio, House encara um novo paciente, com sintomas inexplicáveis, e junto de sua equipe de médicos dedicados e enfermeiras, ele deve descobrir misteriosos casos.

Música:
“Machine Gun”, Portishead

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Paul Auster estou escrevendo para contar a minha história, como a única condição para participar do seu programa de rádio, “Weekend All Things Considered”, é que a história contida na carta seja verdadeira, isso eu posso afirmar.

“Uma nuvem preta”

O ditado popular diz que nós brasileiros sempre deixamos as coisas, sejam elas quais forem, para a última hora. Na universidade eu tive uma professora que dizia algo bem parecido: “Vocês são desorganizados e deixam tudo para a ultima hora.” Ao longo dos anos e com o acumulo de trabalhos e responsabilidades percebi que ela estava certa.

Era véspera de Natal, como sempre eu não ligava muito para essas datas, mas gostava de ficar próximo das pessoas que eu amo, minha família e os poucos amigos. Os preparativos para a ceia de natal estavam quase todos prontos, faltavam apenas detalhes, a decoração da mesa, os badulaques nos cantos da casa, os bichinhos de pelúcia no sofá e, claro, assar o peru.

Poucos estavam em casa, provavelmente deveriam ter ido ao cabeleireiro, a manicure ou, sei lá, apenas na casa do vizinho. Minha mãe não estava perto.

Meu pai e minha irmã disseram que ela havia ido comprar roupas para o meu irmão e para mim e para ela, coisa rara, ela nunca se preocupava consigo mesma.

Eu não me lembro direito o que estava fazendo naquele 24 de Dezembro, provavelmente escolhendo os discos que iria tocar mais à noite, relendo alguns artigos que me deram prazer durante todo o ano ou apenas brincando com a gata que tínhamos em casa naquela época, não sei ao certo.

Nunca gostei de datas comemorativas porque para mim elas não significam nada, apenas datas que resultam em feriados e depois em lucros para o comércio, não há nada contra isso, não sou contra o capitalismo justo – se é que ele existe, mas não me agrada a idéia de comemorarmos essas datas, não tenho um argumento sólido para defender essa idéia, mas é isso.

Apenas gosto de aniversários e o Ano Novo e se você me perguntar porque eu vou responder que gosto e acredito em renovação e essas datas são ciclos tendo fim e inicio, eu acredito em ciclos, são novas chances, são a esperança renovada, é hora de colocar nossos erros e acertos em xeque, é hora de acreditarmos ou não nos nossos heróis, é essa a grande hora!

O sol já estava indo embora desenhando na tela azul que Ele colocou no horizonte uma linda figura de sombras abstratas e sem significado nenhum assim como as coisas mais belas que já vi, elas não precisam de explicação ou descrição, são o que são e são lindas. Naquela hora eu suspirei e agradeci por aquela graça que estava nos meus olhos.

Por mais que a noite estivesse chegando e os detalhes estivessem todos em ordem nem sempre tudo dá certo…

Já estava bem tarde e minha mãe não tinha voltado para casa, começamos a ficar preocupados e cada vez que o relógio marcava mais uma hora a preocupação se transformava em medo, de medo a aflição, de aflição em tragédia antecipada… mas enfim minha mãe chegou.

Ela não estava feliz e alegre por estar em casa, próxima das pessoas que a amavam, ela estava pálida, gélida e sem vida. Nos preocupamos em checar se ao menos ela conseguia responder algo, o mínimo que fosse, mas não conseguia, estava desacordada.

Rapidamente a levamos para o hospital (já disse que odeio hospitais?), mas incrivelmente havia um trânsito desumano no caminho entre nossa casa e o que achávamos fosse sua salvação.

Eu estava no banco de trás do carro, à frente meu cunhado e meu pai tentavam em vão gritar para que abrissem caminho, mas os carros da frente estavam preocupados apenas em chegar à casa de seus parentes e amigos para celebrar o nascimento d’Ele e abrir seus presentes, eu queria apenas minha mãe sorrindo e olhando para mim, como sempre fez.

Em um dos momentos mais críticos ela ficou gélida, mais pálida ainda, sem responder aos meus questionamentos “Mãe? Mãe? Mãe?”, ela estava indo embora e eu não podia fazer nada, nada. Nunca havia sentido um sentimento de impotência como naquele momento, eu era o ratinho no laboratório d’Ele e eu não podia fazer nada.

Olhei para os céus e clamei por sua ajuda, pedi sua presença e sua mão, pedi uma luz e um milagre, na verdade pedi apenas a minha mãe de volta, queria apenas isso, nada mais, nada mais…

Mas ele não apareceu. Ele nunca mais apareceu e naquele momento aprendi que não seria a única vez que ele me abandonaria.

O farol estava vermelho e eu entrei em pânico, estávamos a apenas algumas quadras do hospital, mesmo sem saber se ela iria sobreviver eu queria chegar naquele hospital, eu precisava chegar naquele hospital.

Entre o pânico e o medo, a impotência e a descrença n’Ele eu chorei de raiva, de medo e da sensação de perder a pessoa que eu mais amava na minha vida, foi quando entre as lágrimas agridoces eu vi uma nuvem negra varrer o carro e entrar na nossa direção, aquilo não era nada bom, não mesmo.

Foi quando eu senti um vazio imenso e devastador dentro de mim, eu percebi que o mal estava próximo e mais uma vez não poderia fazer nada, mais uma vez Ele havia me abandonado e o seu inimigo estava querendo falar comigo.

Em “O Sétimo Selo” há um jogo de xadrez onde quem vencer fica com a vida, mas de um dos lados do tabuleiro está ela, a Morte, do outro nós, a humanidade, comuns e sem dom nenhum. Naquela noite ela estava nos visitando, ela estava me testando, assim como Ele, mas ela era mais irônica e bem-humorada, ela estava querendo me propor algo, mas por algum motivo eu não conseguia ouvir, estava em choque, estava com medo e estava sozinho.

Em poucos segundos vi o filme da nossa família passar nos vidros do carro, como uma tela de cinema mal improvisada, quando eu ia dizer adeus para minha mãe e mais uma vez as lágrimas escorreram e molharam seu rosto, não sei o que houve mas um barulho devastador, algo como um Sigur Rós ao vivo ou um furioso Explosions In The Sky invadiram meus ouvidos e aos poucos a fumaça preta foi sendo levada pela pequena garoa que caia na cidade.

A cidade cinza estava com as ruas negras de molhado, os faróis ficaram verdes e minha mãe chegou ao hospital.

Nunca mais vi a nuvem preta, nunca mais clamei o nome d’Ele, nunca mais (exceto uma vez) chorei por mais alguém.

A noite de Natal ficou triste e cinza, os presentes não foram abertos e eu acredito que o maior presente que poderia ganhar naquela noite era a minha mãe de volta, não sei o que a Morte disse para mim olhando nos meus olhos, não sei o que ela me propôs, sei apenas que ela foi embora e minha mãe está aqui do meu lado.

Achei que meu pai fosse Deus, mas não. Ele não era.

Naquele dia eu perdi muitas coisas. Naquele dia eu perdi minha fé… Deus morreu para mim.

José Franco Nunes.
São Paulo – S.P.

Música:
“Metal Heart”, Cat Power

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- Para que nós precisamos de alguém?
- Como assim de alguém?
- Ah, você sabe, de alguém do nosso lado.
- Assim como namorados?
- Isso, para que a gente precisa disso?
- Ah, mas quem disse que a gente precisa?
- Ah… pára de ser bobo.
- Para sexo!
- Não é para isso não, isso a gente consegue fácil, por uma noite, pagando ou não, mas esse não é o caso, ou é para você?
- Você sabe que não, não é apenas sexo.
- Mas, então, para que a gente precisa de alguém?
- É sério desta vez, mas a gente não precisa. Olha: a gente precisa de água, comido e algumas proteínas para sobreviver, mas o que nos diferencia dos outros animais, os pequeninos 0,6% ou, sei lá, menos, é que nós sonhamos…
- Ah… continua.
- Todo mundo diz que viver é difícil, mas não é.
- Ah, não, não é… – ela faz bico e depois faz aquela cara e que ele está debochando das idéias e atos dela.
- Olha só: a gente precisa de algum dinheiro para se manter, pagar as contas: o aluguel, o telefone, o gás, a energia elétrica, a água e o mercado, mas isso é básico, qualquer empreguinho de merda é possível fazer isso, não é?
- Sim isso é, mas e aquela música dos Titãs…
- Calma, eu estou falando exatamente disso. Continuando o pensamento: mas e a pizza, o cinema, um filme em DVD, o passeio de final de semana ou o feriado, uma roupa melhor, alguma bebida mais nobre? É disso que eu estou falando quando digo que não precisamos de alguém do nosso lado. O sexo que conseguimos, seja lá como for, é a vidinha comum e de merda, mas quando queremos alguém do nosso lado é a vida melhor com todas essas coisas que enumerei. Você não vive apenas com comida, água e onde dormir?
- Sim, claro.
- Mas aí você está sobrevivendo, como em uma selva e não precisa ser romântica ou poética e dizer que é uma selva de pedras, a cidade cinza. Mas claro que você, assim como eu, prefere a outra vida, com cinema, pizza, passeio… Isso é ter alguém. Então, acho, que a pergunta correta é: por que nós queremos alguém? Não é?
- Bem, pensando por esse lado é sim, mas então tudo bem, por que nós queremos alguém?
Eu posso falar apenas por mim: gosto de estar com alguém para ter com quem dividir meus segredos, as boas memórias, ter quem abraçar e saber que aquela pessoa se importa comigo, está preocupada porque eu ainda não cheguei, é gostoso saber que “pertencemos” a alguém e que da mesma que sentimos coisas, sentimentos bons com ela, ela também sente com a gente, dividir esperanças e planos e é com essa pessoa que consigo exorcizar meus demônios e meus fantasmas… Mas e você, por que você quer alguém?
- Eu ainda não sei, além de sexo e noites conversando sobre quem é melhor o rock inglês ou o americano, quem é melhor o jazz de ontem ou os pianistas de hoje, se sexo é melhor no frio ou a beira-mar… – ela foi interrompida.
- Ei, ei sua malandrinha esses são questionamentos meus e que eu que uso quando quero brincar com você, isso não vale, não mesmo, pode arrumar outros artifícios para fugir de uma pergunta… sem respostas.
- Ok, ok – ela sorriu.
- Por que quero estar com alguém? – ela mesma se perguntou em voz alta. Não sei.
- Sabia que você iria responder isso. – ele disse e sorriu
- Quem vai saber…

Ambos sabiam que encontrar a resposta poderia demorar alguns minutos, dias, semanas, meses ou anos, quando não algumas vidas, mas… Quem vai saber…

Música:
“Tropicália”, Tantra

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“Alguma coisa temos que sacrificar.”
Machado de Assis

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Um amigo escreveu em seu blog que a respiração da sua namorada o deixa calmo. Comigo é diferente: os gemidos dela que me deixam calmo (não da namorada dele, claro, opa, olha o respeito).

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Por motivos operacionais (traduz-se: sem internet e sem computador, o que permanece até o momento) fiquei duas semanas sem acessar a internet. Achei que o mundo teria sofrido uma enorme mudança, ora bolas, sites de noticias são atualizados a cada segundo, tanto que um deles chama-se “Ultimo Segundo”, e o grande lance agora é noticiar um fato antes que os outros, até mesmo na internet, mesmo sabendo-se que isso não é possível e o “exclusivo” não é mais como era antigamente, mas… depois de acessar minhas mensagens eletrônicas, visitar blogs queridos, ler colunas atrasadas e, enfim, visitar sites de notícias e seus arquivos percebi que o mundo é quase o mesmo, exceto pela crise financeira nos Estados Unidos e um desastre aqui e outro ali, o planeta segue sua órbita e a vida segue, assim como sempre foi…

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No inicio deste blog havia uma outra pessoa que escrevia aqui, não adianta comparar, aquela pessoa era movida por um outro sentimento, um pouco mais honesto e sincero do que o que a move hoje: apenas sarcasmo e ironia barata, essa cópia fraudulenta de escritores que admira, contrabandeia frases e expressões, quando não idéias. O leitor mais atento sabe disso, ainda bem.

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Memória ilha de edição… (1)

Preciso acertar as contas com o passado, logo.

- Que livros você me indica?
- Ah, não sei, tem aqueles lá da lista que eu havia escrito no blog, mas entre eles eu já comprei o “Achei Que Meu Pai Fosse Deus”…
- Mas não tem nenhum lançamento interessante, algo que saiu agora e que seja legal?
- Tem o daquele cara que apareceu no “Roda Viva” (Steven Johnson), mas eu não sei o nome, ah tem algumas coisas legais, mas não sei de nada que se aproxime do seu gosto…

Ok, vou para um canto da livraria procurar algo interessante e ler citações que sempre aparecem nas primeiras páginas dos livros, enquanto isso ele está no balcão comprando algo, mas eu não identifico o que é. Na verdade apenas percebo que ele compra algo quando estamos indo embora.

Enquanto nos dirigimos para a sala e esperamos a hora do cinema, pergunto na maior ingenuidade que alguém da minha idade possa ainda acreditar:

- É um presente?
- É, mas olha aí.
- Não, deixa pra lá, vai amassar o papel.
- Não tem problema, é só abrir com cuidado.
- Ok.

Quando abro c-u-i-d-a-d-o-s-a-m-e-n-t-e o embrulho percebo que um dos livros que sempre quis ter está em minhas mãos, mas não é meu, que pena, mas fico feliz pela pessoa que vai ganhar.

- Putz que bacana, acho que a pessoa vai gostar, de quem é?
- Feliz aniversário, cara.
- Ah que é isso, é pra mim? Não precisava, que é isso. Putz muito obrigado.

Pronto, coloco um sorriso bobo como criança no rosto, mais um grande presente em mãos.

Existem amigos que não precisam ligar direto, sempre enviar e-mails, mostrar insistentemente que existem, dar presentes em datas comemorativas (pra quem comemora, claro), não, eles possuem algo mais especial que esses simples mecanismos de existência, eles são especiais por serem quem são e eu amo-os assim.

Nada é mais prazeroso do que estar entre pessoas que você ama, seja para beber e bater papo, seja apenas para saber que essas pessoas estão bem.

Muito obrigado cara, você sabe que não é a primeira vez que me faz colocar um sorriso nesse rosto descrente, velho e cansado.

Há uma frase fantástica na contra-capa do livro que ganhei:

“Se você quer uma imagem do futuro, imagine uma bota prensando um rosto humano para sempre.”

Com grandes amigos como os que tenho, essa imagem se decompõe como pó no vento…

Memória ilha de edição… (2)

Preciso acertar as contas com o passado, logo.

Um leitor que me acompanha há um relativo tempo (não sei como ele faz isso, mas… entendo), pede o meu endereço (em tempos de violência não seria normal dar tais dados importantes, mas não creio que alguém queira tão mal a alguém como esse simples blogueiro, por mais que tenha desafetos… não chega ao ponto de alguém me enviar uma, sei lá, carta-bomba).

Depois de algum tempo chega na minha caixa postal uma embalagem contendo um DVD e um livro, o primeiro já era esperado, mas o livro – mais um – é mais uma grata surpresa desse leitor que teima em me deixar feliz com suas palavras e com seu apoio irrestrito as minhas loucuras de escritor.

Uma carta dentro do livro mostra que ele se emprenhou em encontrar algum dos livros listados neste espaço, mas ele me enviou um outro livro que havia lido sobre alguns meses antes na revista “Bravo” e que estaria presente em uma outra lista. Nunca é de se recusar um romance de formação.

Com leitores assim, que teimam em colocar um sorriso neste rosto descrente, velho e cansado, não há como ficar descontente e teimar em desacreditar na humanidade.

Obrigado, mais uma vez.

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Enquanto ela olhava para o mar e pensava no futuro eu estava ali do lado pensando em alguma besteira, quando ela disse:

- Você vai casar comigo?
- Não, eu não vou casar com ninguém.
- Por que, você não me ama?
- Não é isso, não é legal dizer que a gente ama alguém. Quando a gente faz isso só faz doer, as pessoas que ouvem e as que falam sofrem e depois ficam remoendo sentimentos desnecessários.

Se eu fosse ela eu pensaria: “- Filho da puta, como alguém (ele) consegue ser tão frio deste jeito, ser tão desumano e ao mesmo tempo falar essas palavras sem se sentir culpado”.

Mas eu não sou ela. Ainda bem.

Isso deve ter um lado bom. Quem vai saber…

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Quando eu era criança aprendi que amor é igual andar de bicicleta: uma vez que a gente aprende, nunca esquece.

O problema é que eu sempre caia da bicicleta.

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Cogita-se a vinda de inúmeras bandas para o festejado segundo semestre de shows. Ao menos duas bandas viessem, garanto que não reclamaria mais da escassez de shows bacanas.

Radiohead e Nick Cave And The Bad Seeds.

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As pessoas não mudam, elas se adaptam a situações.

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“Quanto medo de não ter/
a herança de um rei/
Quanto pranto em razão/
de um prestigio que não vem/
pra ser nome de uma rua/
ou ter a cara em bronze numa praça/
antes do fim”
“Antes Do Fim”, Gram

Música:
“Dentes Perdidos”, Pato Fu

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Como salvar a vida?
Por Arthur Dapieve

Tenho 41 anos. Não creio que um dia vá iniciar um texto com “tenho 82 anos”. A maior parte da vida já ficou para trás, como lembrança. Não me queixo disso. Não lamento estar ficando velho: muitos não ficam. O problema é que a mesma memória que recorda esta frase do Millôr falha cada vez mais. Escapam-me nomes, fatos e sensações.

Pior, todavia, é a impotência para selecionar quais nomes, fatos e sensações ficam e quais nomes, fatos e sensações se perdem para sempre. Como lágrimas na chuva, diz Rutger Hauer em “Blade runner”. Talvez os computadores tenha me acostumado mal. No meu disco rígido, feito, aliás, de matéria cinzenta mole, não posso salvar e deletar a gosto.

Não me refiro aos grandes momentos da vida, tanto os bons quanto os ruins. Estes, creio, nos acompanham até o apagão final. Embora, naturalmente, também não sejam preservados inteiros ou a salvo da auto-mistificação. Refiro-me, sobretudo, à farândola de pequenas emoções que constitui, no final das contas, o grosso (e o fino) da existência.

Um exemplo prosaico. Domingo recente, depois de um bom almoço caseiro, depois de uma boa cachacinha digestiva. Faz frio, e a vida parece bela. Deito-me para uma sesta. Sobe na minha barriga cheia a Gabi, nossa gata siamesa de nove anos, de personalidade forte. Acaricio-lhe a cabeça, aquecemo-nos reciprocamente as panças, dormimos.

Naquele instante entre a vigília e o sonho, eu desejei com todas as minhas forças salvar o momento de carinho, de contato com seu pêlo macio, seu ronronar, calor, cheiro, da sua amizade inocente, em algum arquivo mental blindado contra o vírus do tempo. Que aquela sensação fosse eterna na memória enquanto eu durasse, supliquei ao vazio.

Foi patético, patético, pois no fundo sabia que qualquer estratagema que eu usasse seria inútil. Concentrei-me em todos os sentidos, fiz exercícios mnemônicos para registrá-los, teclei Ctrl+B nas sinapses. Pensei, então, que a única chance de, quiçá um dia, eu resgatar a cena em sua inteireza seria reler anotações, anotações feitas coluna. Será?

Não, não me iludo. Ainda que a leitura fosse evocativa o bastante para lembrar a tarde de domingo, seria um eco da sensação vivida, bem como toda escrita é uma fotocópia mal-tirada daquilo que se quis preservar. Proust encheu sete volumes tentando recuperar o tempo. Não tinha como não falhar nisso, mas até por isso, dizem-me, fez uma obra-prima.

Não posso me esquecer de um dia ler “Em busca do tempo perdido”.

Nele, sei, trata-se da memória involuntária. A memória, de certa forma, é sempre involuntária. Não está ao nosso alcance escolhê-la. É preciso alguma madalena para ativá-la. Gostaria de não esquecer a tarde com a Gabi. Um dia, ela irá esfriar, eu irei esfriar, o colchão e as roupas de cama serão queimados, a própria cama virará carvão, e se arruinarão o prédio, a rua, a cidade, o país, o idioma. Até o Sol perderá o calor. Ah, a tabacaria!

Já aconteceu-me antes. Com animais e pessoas de estimação que só às vezes me são permitidas rever, em sonhos. Sonhos: aleatórios, randômicos, caprichosos. Acordado, busco acessar o arquivo certo, morder a madalena premiada. No entanto, ela já vem sem calor, sem perfume, sem voz. Às vezes, traz a memória de pele fria, cheiro de flores, dor.

Apesar disso, qualquer lembrança é melhor que a amnésia, que nada mais é do que a perda da própria perda. O falecido Frank Zappa afirmou certa vez, não sobre a memória, mas sobre a vida mesmo: “É melhor se sentir mal do que não sentir coisa nenhuma.” Pode-se parafraseá-lo: é melhor se lembrar do mal do que não lembrar de coisa nenhuma.

Vem-me, então, uma canção dos Ramones, gravada em 1978. Chama-se “Questioningly” e está, apropriadamente ao contexto da coluna, num álbum intitulado “Road to ruin”, estrada para a ruína. Diz a letra: “Eu não a amo mais/ Para que você quer falar comigo?/ Você devia ter apenas me deixado ir/ Memórias nos fazem chorar.”

Quando acesso a palavra “memória” surge-me, antes de tudo, a voz do falecido Joey Ramone, gaguejando no verso “memories make u-us cry” ao som da guitarra do falecido Johnny Ramone e do baixo do falecido Dee Dee Ramone. Daquela encarnação da banda, só o baterista Marky Ramone continua dando suas baquetadas por aí.

Ilustrativo lembrar justamente desta música. Não está entre as melhores da seminal banda punk nova-iorquina. Não me lembro da letra do clássico “Blitzkrieg bop”, sua bota-na-porta. E tenho certeza de que não pode ser nada complexa. Como queríamos demonstrar, não é possível selecionar o que fica e o que vai. Não é como uma faxina na estante.

Durante décadas, enquanto tinha mais futuro que passado, acreditei que a memória tivesse uma capacidade de armazenamento limitada, mas relativamente lógica: preservaria melhor as lembranças antigas e o espaço restante seria disputado pelas frescas. Sabe a dificuldade de guardar novos números de telefone e recitar de cor e salteado os velhos?

O processo, constato, não é tão simples. Memórias antigas e recentes convivem, o essencial se alia ao supérfluo. Adoraria, por exemplo, salvar o primeiro gu-gu-dá-dá da minha filha e deletar a cara-de-pau dos senhores Marcos Valério, Delúbio Soares e Sílvio Pereira na CPI – mas recordar seus atos. O que me garante que a coisa certa vai ficar registrada? Aliás, ora bolas, o que mesmo eu estava querendo dizer com este texto?

Música:
“The Rat”, The Walkemen

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Antes de voltar, uma pergunta:

Como salvar a vida?

jr

“Sou uma pessoa boa de lidar, mas problemática no meu mundo. Desde que me conheço sou honesto, mas o meu sintoma e a vida são desonestos comigo.”

Hamilton de Jesus Assunção, “Ser poeta é se viver”

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Bom

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Péssimo

Ouvindo

pablo-honey

35

Radiohead - Pablo Honey

the-bends

35

Radiohead - The Bends

ok-computer

50

Radiohead - OK Computer

kid-a

45

Radiohead - Kid A

amnesiac

45

Radiohead - Amnesiac

hail-to-the-thief

5

Radiohead - Hail To The Thief

in-rainbows

50

Radiohead - In Rainbows

Livro

de-cabeca-baixa

"De Cabeça Baixa", Flavio Izhaki

("Guarda-Chuva, 186 páginas)

 

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Shows Internacionais

Coldplay - Via Funchal - São Paulo, S.P.
Pearl Jam - Estádio do Pacaembu - São Paulo, S.P.
U2 - Estádio do Morumbi - São Paulo, S.P.
Foo Fighters - Rock In Rio 3 - Rio de Janiro, R.J.
Jon Spencer Blues Explosion - Teatro SESC Pompéia - São Paulo, S.P.

Filmes

"Grandes Esperanças" (Great Expectations, EUA, 1998) de Alfonso Cuarón, com Ethan Hawke e Gwyneth Paltrow

"Um Sonho De Liberdade" (The Shawshank Redemption, EUA, 1994) de Frank Darabont, com Tim Robbins e Morgan Freeman

"Peixe Grande e Suas Histórias Maravilhosas" (Big Fish, EUA, 2003) de Tim Burton, com Albert Finney e Ewan McGregor

"O Labirinto do Fauno" (El Laberinto del Fauno, México, Espanha, EUA, 2006) de Guillermo del Toro, com Ivana Baquero e Doug Jones

"Amores Brutos" (Amores Brutos, México, 2000) de Alejandro González, com Gael García Bernal

5 Melhores CDs

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1) "Ok Computer" (1997), Radiohead

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2) "A Rush Of Blood To The Head" (2002), Coldplay

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3) "O" (2003), Damien Rice

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4) "Lady & Bird" (2006), Lady & Bird

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5) "Live In Tokyo" (2004), Brad Mehldau

Mojo Book e outras leituras

Mojo Book e outras leituras

Mojo Book "Grandes Infiéis", Violins

Single Book "Paranoid Andoid Live", Brad Mehldau

Arquivo Poppycorn

Cinema | DVD 2008

"No Direction Home: Bob Dylan"

"CSI - Perigo A Sete Palmos"

"A Vida dos Outros"

"Medo da Verdade"

"Magnólia"

"A Ponte"

"Controle - A História de Ian Curtis"

"Batman - O Cavaleiro Das Trevas"

"Ensaio Sobre a Cegueira"

"Doutores da Alegria"

"O Ilusionista"

"Wall-E"

"Anti-Herói Americano"

"A Ultima Cartada"

"O Plano Perfeito"

"Batman Begins"

"Sangue Negro"

"Nina"

"A Lenda do Tesouro Perdido - 2"

"Arquivo X - Eu Quero Acreditar"

"Eu Sou A Lenda "

"Filhos da Esperança"

"Antes de Partir"

"O Hospedeiro"

"Jumper"

"Borat"

"Cloverfield - Monstro"

"Mandando Bala"

"Mr. Vingança"

"9 Canções"