A primeira pessoa
Arthur Dapieve
“Nos últimos duzentos anos, aproximadamente, a porção individualista do homem ocidental foi sendo refinada por coisas tão díspares quanto o capitalismo, o Romantismo, a psicanálise, o automóvel, a disseminação do uso da cocaína e o computador pessoal. Todas elas, porém, reforçando uma celebração desmedida do Eu, da primeira pessoa do singular.
No campo da comunicação, essa hipertrofia apresenta uma série de características tão interessantes quanto, em alguns casos, potencialmente preocupantes. São facetas do mesmo fenômeno o Orkut, os blogs, as revistas na linha ‘Caras’, a substantivação do adjetivo famoso, a vigorosa reaparição do sujeito enunciador nos textos jornalísticos.
Orkut e congêneres, conquanto agrupem seus membros em comunidades ligadas por interesses culturais (artísticos, políticos, sexuais), têm como cerne uma espécie de prova dos noves do ego: dize-nos quantos amigos tens e te diremos quem és. Portanto, pessoas com baixa auto-estima devem permanecer fora do clube para evitar dissabores. Pior ainda, trauma severo, é simplesmente não se conseguir um convite de acesso ao Orkut.
Entre os blogs, decerto há endereços com textos de alta qualidade literária, endereços com apurado senso crítico e endereços com o desejo social sincero de trocar figurinhas culturais. Na maior parte dos casos, no entanto, os blogs são apenas versões despudoradas (porque abertas a todos os internautas) do ‘Meu querido diário’: bebi, fiquei, dormi, levantei, tomei café, fiz cocô. Nestes, a escritura nada transcende.
Há quem tenha uma visão mais ácida sobre todo o conjunto de blogs. Num artigo da edição de dezembro 2003/janeiro 2004 da revista ‘Argumento’, a jornalista Lúcia Guimarães, do ‘Manhattan Connection’, descreveu-o num texto hilariante: ‘O blog parece o novo trenzinho elétrico do ego. É um brinquedo elaborado, auto-indulgente e interessa acima de tudo a quem batuca o teclado numa incontinência verbal sem precedente desde que Rui Barbosa passou por Haia. Assim como os couch potatoes obesos que povoam as salas de estar contemporâneas são consumidores vicários do narcisismo alheio pela TV, os blogaditos (dependentes de acessar blogs) contribuem para este novo umbiguismo.’
Este umbiguismo tem nas revistas da linha ‘Caras’ – e nos programas de TV que as emulam – a sua linha de frente. Gilberto Braga acaba de flagrar a situação na telenovela ‘Celebridade’. A sua voracidade, contudo, é tamanha que cria um novo ardil 22: falar mal dela é, ainda assim, falar dela, o que, para efeito de propaganda pessoal, dá quase no mesmo. Favor lembrar da Lei de Mick Jagger: ‘Desde que a minha foto esteja na capa, não ligo a mínima para o que está escrito na página 37 ou na 94.’ Tal declaração precede em muito a sua noitada com Luciana Gimenez, ou seja, é de um tempo em que as pessoas só se contentavam com a capa. Hoje, luta-se pela foto no canto inferior esquerdo da página par.
Tanto nas revistas quanto nos programas de TV, sem falar em algumas alarmantes incursões no jornalismo, busca-se substantivar o adjetivo famoso. A pessoa não é mais uma artista famosa, um médico famoso, um advogado famoso. Ela é famosa. Ponto. Ela se acha. Ponto. Há não muitos anos ainda era necessário fazer alguma coisa para merecer o adjetivo. Carla Perez, por exemplo, e sua exuberância calipígia. Hoje não se precisa nem rebolar.
A predominância da televisão como fonte de informação (inclusive dos profissionais da comunicação em outros meios) tem tido um impacto notável no modo de se escrever para jornalismo. Na TV, a presença física dos repórteres é imanente ao trabalho: ouvimos suas vozes, vemos suas imagens – eles se dirigem a nós, como pessoas. Querendo ou não, eles se confundem com a notícia. Nos jornais e revistas, a coisa não tem de ser assim. Um texto pessoal não passa necessariamente pelo uso da primeira pessoa. Leia-se, por exemplo, os grandes textos de Dorrit Harazim, hoje colaboradora do GLOBO. Ela esteve na Guerra do Vietnã, no golpe de Pinochet no Chile, no Onze de Setembro, em sete Olimpíadas, sem a menor vaidade de usar o Eu para ‘assinar’ suas reportagens.
De maneira geral, o Eu havia sido expurgado de determinado período da história da imprensa em nome da imparcialidade que nunca existiu, a não ser nas segundas intenções dos sectários do Conselho Federal de Jornalismo. Sem o Eu, em tese, a subjetividade estaria banida, permitindo a cobertura objetiva dos fatos. Todavia, sabemos hoje, nenhum jornalista pode se acovardar numa impossível neutralidade, ludibriando o próximo.
Colunistas sempre tiveram a permissão tácita do leitor para opinar e, se necessário, lançar mão da primeira do singular. Para os cronistas, o recurso ao Eu é não só aceitável como quase obrigatório, na medida em que a personalização do discurso trabalha em favor da empatia e da leveza associada a seu trabalho. Entretanto, diante da abundância de Eus na teia da comunicação, talvez seja o caso de, mais que nunca, subentendê-lo.”
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O texto acima é assinado pelo jornalista Arthur Dapieve, e não raras vezes o leitor irá perceber a presença desse nome junto às palavras que habitam esse espaço, quem conhece sabe que o cara é mestre como poucos.
Resolvi publicar esse texto porque ele diz muito a/sobre quem costuma freqüentar a “blogesfera”, mas o fragmento que interessa e que se destaca do todo para mim é “Na maior parte dos casos, no entanto, os blogs são apenas versões despudoradas (porque abertas a todos os internautas) do ‘Meu querido diário’: bebi, fiquei, dormi, levantei, tomei café, fiz cocô. Nestes, a escritura nada transcende.”
Não se propõe aqui um “bebi, fiquei, dormi, levantei, tomei café, fiz cocô…”, mas sim acrescentar algo. Sei que o desafio é gigante, mas é melhor tentar do que continuar deixando grandes “coisas do pop” passarem desapercebidas da TV, do Rádio ou do Jornal.
Uma coisa, antes de tudo, é bom que fique clara: textos inteiros com começo, meio e fim e uma troca de idéias mais argumentada (assim como a professora ensinou na escola) o leitor poderá encontrar no Poppycorn.
Aqui, apenas um bate-papo mais informal.
Aceita o convite?
Abraço.Radinho: “Teleport”, The Dead Superstars

















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